ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 565 - 24/11/2009
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Portais online, casulos informativos e a recomendação noticiosa
Postado por Carlos Castilho em 26/10/2009 às 4:40:14 PM
 
 

Os portais noticiosos na Web estão cada vez mais na contramão da tendência rumo à recomendação personalizada como base para agenda de informações dos usuários da internet, especialmente os com menos de 35 anos.

 

Uma pesquisa divulgada semana passada pelo instituto norte-americano Pew Internet indicou uma elevação em quase oito pontos percentuais no uso do sistema de microblogs Twitter como ferramenta para atualização sobre pessoas e notícias. Segundo a investigação, 19% — ou um em cada cinco internautas — recorrem ao Twitter e outros sites de redes sociais para saber o que seus amigos, parceiros ou ídolos estão fazendo.

 

O trabalho também revelou que os homens e mulheres na faixa dos 30 aos 35 anos são os principais usuários do sistema de micromensagens com até 140 caracteres. Este dado contraria a idéia muito difundida de que os adolescentes e jovens com menos de 25 anos são os principais usuários do Twitter.

 

O problema não se restringe, no entanto, em identificar modismos. A questão vai mais longe. As redes sociais online, entre elas as badaladas Facebook e Orkut, são na verdade imensos conglomerados virtuais onde a recomendação funciona como o principal gerador de agendas e de consumo.

 

O que se nota hoje, e os marqueteiros online são os que mais estudam o fenômeno, é que a recomendação pessoal está substituindo rapidamente a publicidade e o marketing convencionais, bem como deixando para trás a agenda informativa da imprensa convencional.

 

É cada vez maior o número de pessoas que só confiam numa notícia depois que ela foi comentada por outras pessoas. Estas pessoas conquistaram uma alta reputação na blogosfera, o universo virtual dos blogs, por seu conhecimento, credibilidade e interatividade em redes sociais.

 

As assinaturas individuais estão se tornando tão ou mais valorizadas do que os títulos de publicações. E quem mais sofre com isso são os portais noticiosos, tanto os de empresas online como os produzidos por grupos jornalísticos que editam jornais e revistas impressas.

 

Os portais foram construídos dentro da filosofia de que eles seriam lugares de passagem, onde o internauta descobriria o que está acontecendo e escolheria o que iria ler, ouvir, ver ou comentar. Acontece que com a recomendação as pessoas recebem sugestões de leitura e vão direto à notícia, sem passar pelo portal.

 

Cresce também o número de internautas que deixam de lado a notícia e o artigo para ir direto aos comentários, procurando saber o que as pessoas em geral estão pensando sobre um determinado fato, processo, opinião ou informação.

 

A recomendação informativa é hoje um processo em acelerada expansão também na área do consumo de bens e serviços. É cada vez mais freqüente o fato de o comprador potencial procurar saber o que as outras pessoas opinam sobre um produto antes de comprá-lo. No segmento de produtos eletrônicos este procedimento já se tornou uma regra, dada a enorme variedade de modelos e de fabricantes.

 

O grande risco nesse tipo de opção é a criação do que o professor norte-americano Cass Sunstein chama de “casulos informativos” (information cocoons). Quando a tendência é seguir recomendações de outras pessoas com a mesma opinião, cresce a possibilidade de homogeneização e sectarismo.

 

Apesar da enorme variedade de posicionamentos na blogosfera, a tendência ao casulo informativo é muito forte entre os weblogs conforme mostram pesquisas feitas nos Estados Unidos. Nada menos que 91% dos blogs norte-americanos sugerem sites da mesma tendência política ou cultural.

 

Avaliar opiniões opostas dá muito mais trabalho e o comodismo ou falta de tempo acabam por estimular o “efeito manada” entre os blogueiros. Se a imprensa convencional estivesse atenta a esse fenômeno, ela poderia encontrar nesta conjuntura uma opção para reconquistar relevância informativa apostando na diversidade e na divergência.  Mas isso ainda é apenas um sonho.
Comentários (7)
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Alexandra  Garcia, Professora (São Paulo/SP)
Enviado em 29/10/2009 às 4:19:15 PM

Estou com o Herman e o Alexandre quando procuram enxergar o que há de positivo nos comentários, pois o que existe fora disso, como explica Caetano Veloso na letra de Sampa "É que Narciso acha feio o que não é do espelho".
Edward  Wilson Martins, empresário (São Paulo/SP)
Enviado em 28/10/2009 às 10:53:00 PM

O artigo sempre imperdível do Castilho analisa uma tendência, particularidade, modismo, etc., não sabemos para onde vai ou no que vai dar tudo isso, mesmo porque a Internet é uma revolução em andamento e onde vai chegar, só o tempo dirá... Mas ainda insisto como fiz em outros comentários que cultura e educação e conhecimento e muita leitura são fundamentais para informantes e informados... Fica a ressalva de que tudo isso não se aprende "só" ou exclusivamente na escola, fico com o entendimeno de que diploma é canudo que muitas vezes nada tem a ver com cultura e conhecimento. Até porque muitos estudantes depois de poucos anos esqueceram tudo que aprenderam nos colégios e universidades. Mas fico com um comentário aí debaixo de que muitos comentários são ruins e mostram que não entenderam nada do artigo e mais clichês e estereótipos, etc., ou seja, é preciso um esforço para que todos aprendam mais e melhor.
Alexandre  Pastre Gonçalves, contabilista (Andradas/MG)
Enviado em 28/10/2009 às 10:32:13 PM

É intrínseco do ser humano recorrer ao objeto de maior identificação, seja um colunista, jornalão, revistas semanais ou de fofocas. A participação da recomendação pessoal pode ser até uma necessidade de suprir a carência por uma identidade. Acho que os colunistas já realizam o papel da assinatura individual. O crescimento das mídias virtuais têm acelerado esta tendência. Pessoalmente, sempre gostei muito de ler os comentários. Às vezes, eles são mais interessantes que o próprio texto: são mais concisos e reproduzem a receptividade que às vezes é coincidente com parte do restante dos leitores. Mereciam até mais espaço em certos veículos "apostando na diversidade e na divergência".
Comentário do Autor

Caro Alexandre, e aproveito para colocar também o Herman, na conversa:
Vocês abordaram a questão dos comentários em posts, um assunto sobre o qual eu tenho muito interesse em trocar idéias. Ao longo de quatro anos de publicação do Código eu verifiquei que houve uma mudança notável no conteudo e na frequência dos comentários de leitores. No conteudo, da fase inicial meio truculenta, tipo catarse, passamos a um etapa de colaboração. As pessoas começam a querer pensar juntas. É claro que ainda há comentários feitos mais com o fígado, mas inclusive estes refletem uma realidade que não pode ser ignorada. Da minha parte também houve uma mudança, no início eu considerava os comentários como um indicador de popularidade. Hoje eu vejo que o desafio não é massagear ego mas criar interatividade entre usuários e produtores de informação. Na verdade vocês já são o que os gringos chamam de produsers, simultaneamente produtores e usuários de informação. Usuários quando lêem o Código e produtores, quando o comentam.
Os comentários já não são mais um apêndice, mas uma parte obrigatória e relevante de um blog, porque eles são um indicador da rede de produsers. É esta rede que produz conhecimento, mais do que o próprio autor.
Bom, isto era para a gente continuar a conversa sobre comentários. Voltem sempre. Abração Castilho

Herman  Fulfaro, taxidermista (Sorocaba/SP)
Enviado em 28/10/2009 às 6:39:56 PM

Gostaria de saber de onde saiu essa de que existe ou existiria uma tendência do leitor deixar de lado a notícia, partindo direto para os comentários! Se verdadeiro, acredito que isso traduza, antes de mais nada, uma tremenda desconfiança em relação ao jornalista o que, convenhamos, não chega a ser novidade. Afinal, jornalistas que se vendem ou distorcem notícias não constituem novidade alguma, razão pela qual o internauta dar mais atenção aos comentários do que à notícia em si é realmente estranho, mas não deixa de ter explicação. Normalmente eu leio todas as opiniões, e não raras vezes me surpreendo com a inteligência e lucidez de alguns, e acredito que esteja exatamente um dos encantos da informação pela internet ou, mais exatamente, através de blogs de notícias. Mas, seja em relação ao artigo em si, seja em relação aos comentários, não consigo deixar de lado nem a lógica e nem a intuição. Se isso favorece ou evita um pensamento homogêneo ou sectário não sei, mas ao menos fico com a impressão de estar bem informado.
José Melquíades Ursi  Ursi, Programdor Visual (Curitiba/PR)
Enviado em 28/10/2009 às 5:04:50 PM

Não sei se vou me fazer entender, mas arrisco. Por isso, Lula desorganiza a grande mídia de braçadas. O presidente está está colorido e risonho no Twitter a toda hora: de trombone na boca, de chapéu de couro no nordeste, no abraço caloroso ao anúncio das Olimpíadas no Rio, no beijo no rosto de Lula dado pelo irmão irmão de Tófolli, nos abraços em gente do povo, inclusive em nordestinos, pelo Brasil afora, no afago de Obama, na foto ao lado da raínha da Inglaterra. a planície vê, encanta-se e nem se dá conta do verbo mediático. E por aí vai.
Ibsen  Marques, Técnico em Eletrônica. (Caçapava/SP)
Enviado em 28/10/2009 às 4:18:16 PM

Pois é, então corremos o mesmo risco de tornar as webnews tão parciais e criticáveis como a dos jormalões. Por outro lado, se há uma tendência homogeneizadora, então a queda na tiragem dos jornalões não se justifica apenas pela péssima qualidade das informações que oferecem. De outra forma, não ler a notícia e ir direto aos comentários fará tanto mal à informação quanto o que sofrerá o cidadão que procurar produtos eletro-eletrônicos sem pesquisar suas características (o brasileiro é mestre na não leitura de manuais; dá muito trabalho!) indo como Maria vai com as outras atrás da escolha de outros. Vai optar por um produto muito bem qualificado por consumidores, mas que poderá não satisfazer suas necessidades específicas. Tenho lido comentários a notícias em alguns blogs e não tenho nada de bom a comentar sobre eles, inclusive aqui no Oi. Os comentários tendem a não analisar as notícias mas a se tornar uma queda de braço entre comentaristas e, normalmente, desprovida de qualquer conexão com a notícia a ser comentada. Aqui no Oi por exemplo, qualque artigo é motivo para queda de braço entre PIGuistas e PTistas, o problema central dos artigos, via de regra, é deixado de lado. Há também muita crítica ofensiva aos articulistas e outros comentadores. verdade é que a boa informação pode ser pinçada em todos os meios, basta senso crítico e visão ampla para não cair nas armadilhas...
Ricardo  Dias, Sem profissão (Rio de Janeiro/RJ)
Enviado em 28/10/2009 às 11:43:30 AM

A notícia deixou de ser informação digerida com o devido vagar no banco de um trem de madeira puxado por uma locomotiva. É agora produto para consumo no interior de um trem-bala e sua difusão em efeito cascata. Com efeito, a manada de compradores (leitores) corre louca e intuitivamente numa única direção, em busca da “sobrevivência” ameaçada constantemente pelos seus estratégicos “predadores” – o pensar, a avaliação e o discernimento. Nesse sentido, caminhamos cada vez mais para futuras gerações de “manadas sobreviventes”, evidentemente originadas da globalização, sua massificação e modernas lavagens cerebrais, sabe-se lá a serviço de quê ou de quem.
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Carlos Castilho
* Ex-repórter - revista Fatos & Fotos
* Ex-redator internacional - JB
* Ex-editor internacional - Opinião
* Ex-editor telejornais - TV Globo
* Ex-chefe do escritório da TV GLobo em Londres
* Ex-redator - Cadernos do Terceiro  do Terceiro Mundo;
* Ex-correspondente latino americano  do jornal Público/Lisboa
* Ex-editor internacional do JB;
* Ex-editor associado do The World Paper/ Boston;
* Ex-editor latino-americano da agência IPS - Costa Rica;
* Ex-consultor de advocacy na mídia para a União Européia;
* Professor de Jornalismo Online , Faculdades ASSESC (Florianópolis);
* Professor de Projetos Multimídia (pós-graduação latu senso) no CESUSC / Florianópolis;
* Professor de Jornalismo Online (curso a distância) no Knight Center, Universidade do Texas; 
* Autor do capítulo Webjornalismo no livro No Próximo Bloco - Editora PUC/Rio -2005.
* Autor do prefácio e tradução do livro Jornalismo 2.0, de Mark Briggs, publicado pelo Centro Knight, da Universidade do Texas.
* Mestre em Mídia e Conhecimento pelo EGC/UFSC. 
-Reside em Florianópolis / SC
email ccastilho@gmail.com


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